Review: Rincon Sapiência - Galanga Livre

Review: Rincon Sapiência - Galanga Livre

29.05.2017

 

Rincon Sapiência, também conhecido como Manicongo, chegou aos estúdios para gravar uma obra mais do que necessária, o álbum Galanga Livre. Rapper e poeta, começou sua carreira nos anos 2000. Organizou sarais de poesias e outras atividades que promovem à arte. O título do álbum é inspirado na história lendária do escravo Galanga que lutou em busca de liberdade. E assim se introduz o álbum de Rincon.

 

A segunda faixa do álbum, "Crime Bárbaro" , é narrada com uma batida pulsante e urgente ao fundo, acompanhada de uma guitarra que dialogam com narrativa de um 'preto fujão'. Sim, o preto submetido as condições da escravidão, que se rebelou contra esse absurdo tolerado pelo sistema. Em busca da liberdade e do respeito que todo ser humano nasce digno de ter. Durante a música, conhecemos os aspectos da saga de Galanga com suas 'canelas finas pra correr'  e as atitudes que confrontavam as leis ditadas pelos senhores do engenho. 

Em "Vida Longa", faixa que segue, Rincon trabalha o rap em aspectos mais concretos do cotidiano. Entre "Brasil vai virar Cuba" e "Infelizmente Bolsonaros não é tipo raro", o rapper vai tecendo na letra absurdos do cenário político brasileiro que são uma avalanche de notícias e decisões que prejudicam a população, um nó no nosso peito, direitos retirados aos poucos. Sem eximir nossa responsabilidade: hey, nois tem poder/ legal, use o senso do homem de bem/ pode derrubar o homem mau.

 

"A Volta pra Casa", 4ª faixa do álbum, é um lugar onde retrata a classe trabalhadora, o verdadeiro corre urbano. Poetizando sobre tratamento obscuro que a cidade oferece: ônibus lotado, metrô lotado e horas pra chegar ao lar. As mulheres que encaram as ruas escuras durante a noite, com o constante medo no peito de um homem vir e atacar. A juventude que tenta atender as tarefas que dizem que é obrigação, estudar e trabalhar. Ser bom funcionário e bom aluno, como pode moer de cansaço o corpo, mesmo os que habitam na Terra a poucos anos. É uma poesia musical em que muitos se encontram em seu conteúdo e descansam no peito da compreensão do artista.

A música "Meu Bloco" é harmoniosamente a homenagem ao samba, os mais brasileiro dos nossos ritmos. Sem deixar de lado o rap e o trap, Sapiência passeia no somatório dos ritmos com rimas que empoderam a cultura das ruas. "Moça Namoradeira" narra a história de uma mulher que almeja e espera o amor sincero de um companheiro, porém é ferida diversas vezes ao receber sempre o oposto de um relacionamento saudável. No transcorrer da letra, há um apoio e incentivo para que se liberte de todas as amarras que relacionamentos tóxicos podem trazer. 

"A Noite É Nossa" reflete um amor inesperado, que chegou sem ser chamado mas que é bem aproveitado. Um lado romântico de Rincon, que narra o encontro de uma noite em que o amor choca, a libido explode e a junção de tudo isso é um privilégio a ser sentido. "Amores Às Escuras" explora também a paixão aflorada.Mas o mais importante, são as rimas libertárias de uma beleza padronizada que muito exclui a pele preta.

 

"A Coisa Tá Preta" vêm mostrar o lado bom dessa coisa, chamada de preta ou não. Expressão usada para se referir a algo negativo, "coisa" que está dando errado. Na letra aprendemos tudo ao contrário. Ei, Dj ferve mil grau/ arame, cabaça. pedaço de pau/ que nem capoeira, fechou berimbau/ a coisa tá preta, ó que legal!

 

"Benção" faz menção das coisas boas da vida. As coisas boas que naturalmente temos a receber. A oração, a fé, a luz que brilha, o alimento que chega ao estômago, o amor. Imperativos da vida que não se negam a ninguém e que devemos desfrutar. Essa é a benção

Sensível as questões do mundo, "Galanga Livre" é a 12ª faixa do álbum. Como na história de Galanga, vemos aqui uma avidez pela justiça e a liberdade pertencente. "Eu não vou bater panela na varanda... Rua, nós vamos ocupar!" Assim se enquadram os brasileiros que se queixam da prisão imposta desde os senhores de engenho até os políticos de brasília. "Ostentação À Pobreza", faixa seguinte, trás a luz as vozes que não se escutam. Com batidas tensas e atribuindo um clima tenso a música, Rincon vem largando em nós a realidade de se viver na pobreza. Vitimas de um país com má distribuição de renda, a falta de opção resultante da falta de acesso ao estudo. Realidades que ainda imperam no nosso Brasil. 

 

Galanga Livre termina com a faixa "Ponta De Lança", na qual um MC resgata as raízes e os primórdios da cultura do rap. Onde os holofotes vão de encontro ao conteúdo das rimas junto a quantidade de palavras em poucos segundos, sem glamour estético ou o ego que fala mais alto. É a preocupação com o que diz e não com o que se vê. A essência do rap e o que é essencial de verdade.

 

Confira essa obra linda com a gente:

Nota: A autora não faz mais parte do site desde abril de 2018. Os seus conteúdos estão disponíveis por autorização da mesma.

 

 

  

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